advertisement
advertisement
 

 

É possível “gozarmos juntos”? – Parte 2

Amadeu de Oliveira Weinmann

A TEORIA DO ORGASMO Neste esboço de psicopatologia e sociologia da vida sexual já encontramos em análise aquele fenômeno que viria a constituir-se na pedra angular das investigações de Wilhelm Reich – o orgasmo. Nesta sua primeira aproximação ao tema, Reich demonstra que o problema da discrepância temporal entre o momento do clímax do homem e o da mulher, no ato sexual, não decorre de uma condição biológica imutável, vinculada à reprodução, mas que se insere em perspectivas psíquicas e sociais, relacionadas à possibilidade, ou não, dos sujeitos envolvidos na experiência dela extraírem as maiores quotas de prazer. Esta desnaturalização do orgasmo parece-me ser a grande contribuição do artigo O coito e os sexos.
            No entanto, pode-se observar que, neste artigo, a teoria do orgasmo ainda encontra-se em estado embrionário. Reich (1992 [1922]: p. 24) afirma: “um homem que está afetivamente ligado à mulher pode agir voluntariamente sobre a sucessão dos estágios fisiológico-reflexos, conseguindo desse modo uma simultaneidade dos clímaxes (...). A partir desta sentença, podemos tecer as seguintes considerações:

  • O conceito de potência, com que Reich opera, ainda está intimamente relacionado à capacidade do homem de ter ereção e de mantê-la mesmo após atingir o clímax (ejaculação), permitindo, desta forma, que a mulher também chegue ao orgasmo. Este conceito de potência está fortemente amarrado à noção de domínio consciente, de controle voluntário do homem sobre os seus “automatismos sexuais fisiologicamente condicionados”. Além disto, esta perspectiva desconsidera a hipótese de uma potência feminina intrínseca, visto que a possibilidade da mulher experimentar o orgasmo está atrelada à potência masculina. O conceito de potência orgástica10 (Reich, s/d [1927]; 1994 [1942]) virá superar estes impasses teóricos.
    • A noção de “automatismos sexuais fisiologicamente condicionados”, ou de “sucessão dos estágios fisiológico-reflexos”, ainda retém a idéia de que a discrepância nos ritmos excitatórios do homem e da mulher seria de natureza biológica. O que Reich está propondo, em seu artigo O coito e os sexos, é que fatores psíquicos e sociais podem abrandar esta discrepância natural, ou agravá-la. O conceito de couraça muscular retirará esta questão de uma perspectiva estritamente fisiológica, inserindo-a no ponto de entrecruzamento de processos biológicos, psíquicos e sociais. O encouraçamento biofísico consistiria no componente somático das inibições da excitabilidade sexual – responsáveis pela discrepância entre os clímaxes – e constituir-se-ia, defensivamente, contra o que Reich denominou angústia orgástica11.
    • O que Reich tem em vista, no artigo que estamos examinando, é retirar a sexualidade – mais especificamente, o orgasmo – do terreno estritamente biológico-reprodutivo, analisando-a pelo viés do prazer que podem desfrutar aqueles que a experimentam. Em nenhum momento deste artigo Reich correlaciona as perturbações da satisfação orgástica com o problema da etiologia das neuroses – o que fará, posteriormente, ao cunhar o conceito de impotência orgástica.
    • A ênfase conferida por Reich aos fatores sexuais atuais12 na etiologia das neuroses fez com que tanto psicanalistas, quanto reichianos, entendessem que os processos psíquicos inconscientes, relativos aos conflitos sexuais infantis – Édipo, castração, recalcamento, etc –, fossem desprezados por este autor. Em O coito e os sexos, vemos Reich derivar as perturbações orgásticas desta ordem de processos. Uma leitura atenta da obra posterior de Reich permitirá conceber a relação entre os fatores atuais e os infantis (inconscientes) como sendo de natureza eminentemente dialética; a importância atribuída por Reich aos fatores atuais tem de ser compreendida como a contrapartida, no interior do movimento psicanalítico, da desvalorização teórica dos mesmos13.
    • A idéia de que a simultaneidade dos clímaxes não só é possível, como desejável, não foi revogada com o desenvolvimento da teoria do orgasmo. Reich (1994 [1942]: p. 99) sustentará que “o orgasmo em ambos os sexos é mais intenso quando coincide neles o ápice da excitação genital. Esse é muito freqüentemente o caso entre homens e mulheres capazes de concentrar afeição e sensualidade em um companheiro que corresponde a essa afeição e sensualidade”14.
    • Com o desenvolvimento da orgonomia, Reich (2001 [1948]: p. 361) enunciará esta questão em novos termos, mais próximos da física e da biologia: “a superposição sexual é acompanhada pela luminação orgonótica das células do corpo e pela penetração e fusão de dois sistemas de energia orgonótica numa unidade funcional. Os dois sistemas orgônicos que se tornaram um descarregam sua energia no auge da excitação (= luminação) em convulsões clônicas”.
    • A expressão gráfica15 do processo orgástico – a curva orgástica – proporcionará à teoria reichiana um modelo abstrato para analisar os fenômenos culturais16. Cláudio Wagner (1998a; 1998b) sugerirá que uma piada – ou uma partida de futebol – será tão mais prazerosa, quanto maior for a expectativa (tensão psíquica) que gerar e mais plena for a resolução da tensão (descarga energética) que proporcionar. Em uma conversa informal, Cláudio Wagner observou que a noção de tempo lógico da sessão analítica, proposta por Jacques Lacan, também obedece ao principio da curva orgástica. A tensão psíquica, decorrente do conflito entre a censura egóica e o material recalcado, eleva-se – em transferência – até um ponto intolerável, quando rompe-se a defesa e produz-se uma formação do inconsciente (um ato falho, por exemplo), portadora da excitação represada. Neste momento, o analista encerra a sessão, remetendo o paciente à inexorável solidão dos amantes.
    • Um outro ponto abordado por Reich no artigo O coito e os sexos é o intrigante fenômeno da polaridade, que parece desempenhar um papel crucial na atração sexual. Reich postula que, quando os impulsos afetivos e sensuais estão unificados e convergem sobre o(a) companheiro(a), a atitude do homem e da mulher, no pós-coito, transforma-se: “antes do coito o homem assume um papel sedutor, dominante e ativo enquanto que a atividade da mulher está em sua passividade (...). Gradualmente, a atividade do homem transforma a passividade da mulher em atividade, que se intensifica conjuntamente à do homem até o clímax orgástico ser alcançado” (Reich, 1992 [1922]: p. 22-3). Neste momento, uma reversão começaria a ocorrer: o homem torna-se passivo e infantil, e aninha-se junto ao corpo da mulher, e a mulher torna-se ativa e maternal, aconchegando o homem em seu colo. Reich relaciona esta mudança de atitude aos mais remotos desejos (edípicos) do homem e da mulher – (re)unir-se ao corpo materno e ter um filho com o pai, respectivamente. Entretanto, destaco que a idéia de polaridade, em Reich, não é estática – o ativo permanecendo ativo, o mesmo ocorrendo com o passivo –, mas dinâmica: atividade transformando-se em passividade e vice-versa, permanentemente. A rigidez em uma destas atitudes consistiria em um impedimento à experiência orgástica.
    • Em conexão com o tema da polaridade encontra-se o fato de que, no orgasmo, ao mesmo tempo em que se vivencia a mais intensa experiência de fusão somato-psíquica da vida adulta17, é precondição desta vivência um alto nível de individuação, de diferenciação subjetiva (é neste sentido que me refiro, acima, à “inexorável solidão dos amantes”). Dito de outra forma, sincronicamente ao fato de que a experiência sexual suscita a esperança de realização dos mais recônditos desejos humanos – aqueles vinculados ao Édipo –, sua condição irrevogável de possibilidade de gratificação é a renúncia interior à satisfação dos referidos desejos. Esta conjunção dos mais radicais dilemas da existência humana é que tornaria o orgasmo uma experiência tão assustadora e, ao mesmo tempo, desejada.
    • Por conta do modo como a questão das polaridades configurou-se para Reich – homem/mulher, em vez de masculino/feminino –, em seu modelo teórico o lugar legado à homossexualidade será junto da patologia. Talvez Reich tenha se atido ao que Freud denominou “complexo de Édipo simples”, perdendo de vista a importante noção de “complexo de Édipo duplo”18. O fato é que Reich, invariavelmente, inclui a ocorrência de fantasias homossexuais entre os fatores inibitórios do processo orgástico. Esta assertiva parece-me legítima no caso de pessoas heterossexuais que se assustam com suas tendências homossexuais reprimidas; entretanto, como gozariam os homossexuais, senão com suas fantasias homoeróticas?
    • Este tema nos leva a discutir o conceito de normalidade, em Reich. Como vimos, em O coito e os sexos Reich propõe que consideremos normal o que proporciona satisfação, ou bem-estar, aos envolvidos no encontro sexual (penso que podemos extrapolar este critério para os outros aspectos da vida). No entanto, ao longo de sua obra desenvolve-se um modelo ideal do que seria o prazer – a potência orgástica – e o sujeito saudável – o caráter genital –, que tende a cristalizar-se, a tornar-se norma. Este modelo ideal fundar-se-ia no que Reich entende como sendo o natural, no humano, para além de todo encouraçamento biopsíquico introduzido pela sociedade patriarcal (encouraçamento este constituído exatamente com o intuito de dominar as forças da natureza que habitam o homem). Esta tendência de naturalização do humano far-se-á acompanhar por uma aproximação cada vez maior dos métodos e conceitos das Ciências Naturais (modelo energético). Um exemplo desta tendência encontramos no próprio O coito e os sexos quando, após haver feito a rigorosa desconstrução das hipóteses finalísticas e naturalizantes de Urbach, através da análise minuciosa dos aspectos psíquicos e sociais responsáveis pela discrepância temporal entre os clímaxes, Reich (1992 [1922]: p. 22) afirma: “(...) o que a natureza exige não é uma segunda ejaculação, mas a coincidência dos componentes afetivos e sensuais”.
    • Penso que cabe analisarmos o artigo O coito e os sexos à luz de suas vinculações com o contexto histórico em que foi produzido. Em termos de uma sociologia da vida sexual, é gigantesca a transformação operada em nossa cultura19. Se nos primórdios da década de 20 do século XX, ainda vigorava um discurso fortemente restritivo acerca da sexualidade, impregnado de conotações médicas, religiosas e moralizantes, e a prática sexual era confinada em algumas regiões bem delimitadas da vida social20, na atualidade talvez possamos falar de uma intensa sexualização do cotidiano, em estreita conexão com o marketing e os meios de comunicação de massa – o sexo ofertado conjuntamente com um universo de mercadorias, objeto fetichista embalado em uma promessa dourada de felicidade –, num contexto em que o culto narcísico do corpo e o desempenho de uma boa performance sexual tornaram-se um imperativo.
    • Em decorrência destas tendências dominantes da sexualidade contemporânea, observa-se, na clínica, um esvaziamento subjetivo do outro, um empobrecimento da noção de alteridade. Se não alcanço a felicidade prometida, é porque o outro está ali para atrapalhar com o seu desejo, diferente do meu (nestas circunstâncias, é pertinente perguntar: é possível gozarmos juntos?). Associado ao re-posicionamento da mulher na sociedade, os homem parecem encontrar-se retraídos e assustados, e reclamam que elas tornaram-se dominadoras, castradoras e que os sufocam e atormentam com suas queixas e exigências. Por outro lado, as mulheres queixam-se de que os homens não queremenvolvimento, não as assumem, ou são impotentes, etc. Homossexuais sofrem por não conseguirem estabelecer uma relação afetiva duradoura. Parece que é a própria noção de amor objetal – e não apenas o casamento – que está em crise. Paralelamente, recebemos no consultório muitas pessoas para as quais a questão principal não diz respeito, diretamente, ao amor objetal e suas vicissitudes; são pessoas profundamente afetadas em sua constituição narcísica primária – em sua capacidade de amar-se –, possivelmente por não terem sido objeto de um amor primordial para alguém.
    • Em sua análise da psicologia masculina e feminina, em O coito e os sexos, Reich lança mão da teoria freudiana da castração. É por temor à castração que o homem cinde seu objeto edípico; é por não poder renunciar à sexualidade clitoriana – que se lhe configura como fálica –, que a mulher priva-se do prazer genital. No caldo de cultura em que Reich escrevia o seu artigo, o homem era o senhor onipotente do falo21, restando à mulher somente o exercício fálico da maternidade. Na contemporaneidade, estas posições encontram-se muito menos cristalizadas, muito mais complexas. O atributo fálico22 não mais se configura como privilégio de membros de um determinado sexo biológico. No entanto, no imaginário de homens e de mulheres persistem antigas noções profundamente enraizadas, tornando-se fonte de conflitos interiores e de tensão nas relações interpessoais.
    • Por fim, penso ser possível reivindicar a atualidade do artigo de Reich que estamos examinando. Recentemente, o jornal Zero Hora (Porto Alegre, 23/06/2001, Caderno VIDA, p. 4-5) publicou uma matéria discutindo o tema da impotência, onde se lê o seguinte: “hoje, o consenso é de que a impotência sexual masculina é fruto basicamente de causas orgânicas”. A quem pode interessar uma informação destas? Mais adiante, encontramos que o Viagra é “(...) o medicamento mais vendido do país hoje (...)” e que novas pílulas, com ação mais rápida e duradoura, estão entrando no mercado (e não é que o meu cliente – aquele, da piada – estava certo!). Embora assinale que “os medicamentos não substituem o desejo sexual”, a matéria, logo adiante, trata de desmanchar qualquer ilusão psicologizante ao derivar o desejo sexual da produção de testosterona – cujos distúrbios podem ser tratados por meio de reposição hormonal. Este reducionismo biológico só pode interessar aos laboratórios da indústria farmacêutica que, com suas “pílulas da felicidade”, apenas revelam – e exploram – a profunda infelicidade do sujeito contemporâneo.

     

    CONSIDERAÇÕES FINAIS

     

                O problema da discrepância temporal entre o momento do clímax do homem e o da mulher, no ato sexual, insere-se em um debate mais amplo acerca da importância da gratificação corpórea da pulsão sexual. Era convicção de Wilhelm Reich que a sublimação da energia desta pulsão para fins culturais – necessária, sem dúvida – possuía um limite de possibilidade, a partir do qual acarretaria prejuízos subjetivos intensos – o adoecimento neurótico –, que atuariam em detrimento da realização dos objetivos da cultura23. Também era convicção de Reich que a sociedade do seu tempo fazia demasiadas exigências sublimatórias e impunha pesadas restrições à satisfação sexual como condição de preservação de uma ordem social fundada no autoritarismo e na desigualdade sócio-econômica. Neste sentido, a denúncia do confinamento da sexualidade nos estreitos marcos do matrimônio legal e para fins exclusivos de reprodução consistia em um autêntico programa de transformação social. Ao apregoar o direito das mulheres ao prazer sensual24, dos jovens a iniciarem-se sexualmente em condições favoráveis, das crianças exercerem seus jogos eróticos, o direito ao aborto, ao uso de métodos anticoncepcionais, etc, Reich atacava não apenas os fundamentos do casamento burguês, como pretendia abalar as próprias bases da ordem capitalista (nesta perspectiva, cada encontro orgástico consistiria em um pequeno filete de um caudal revolucionário maior).
                Clinicamente, Reich considerava que a internalização das barreiras sócio-culturais resultava em diferentes configurações de bloqueio afetivo associado à inibição sexual. Ao propor o relacionamento amoroso baseado na intimidade sexual como alternativa ao casamento burguês, Reich antecipa-se, historicamente, anunciando aquela que viria a constituir-se em uma das mais importantes reivindicações humanas contemporâneas. É no atual contexto de democratização amorosa e sexual (Giddens, 1993) que o problema da discrepância dos clímaxes torna-se pertinente. Quero gozar contigo! é a expressão de um anseio igualitário por intimidade e intensidade, que contrapõe-se tanto à hierarquização das relações amorosas, quanto ao empobrecimento dos laços afetivos. Isso pressupõe a libertação da sexualidade de suas obrigações reprodutivas e de sua condição de “dever conjugal”25. É preciso que a sexualidade seja suficientemente plástica para que os parceiros possam “afiná-la” em sintonia um com o outro. É enquanto arte erótica, pautada pela busca da intensidade do encontro humano, que esta tendência da sexualidade contemporânea – que teve em Reich um de seus arautos – procura se afirmar.

     

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

     

    BLANK, Paulo. E o eu com o isso? 1995. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Escola            de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
    _____. A função da função do orgasmo. In: Arquivos Brasileiros de Psicologia, Rio de   Janeiro, Imago, v. 49, n. 2, p. 55-66, abr./jun., 1997.
    BRANCO, Lúcia Castello. O que é erotismo. São Paulo: Brasiliense, 1987.
    FIGUEIREDO, Luís Cláudio. Palavras cruzadas entre Freud e Ferenczi. São Paulo:     Escuta,           1999.
    GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo     nas sociedades modernas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista,   1993.
    REICH, Wilhelm. O coito e os sexos (1922). In: Primeiros escritos. Rio de Janeiro,         1992. 126 p. mimeografado.
    _____. Psicopatologia e sociologia da vida sexual (1927). São Paulo: Global [s/d].
    _____. A revolução sexual (1936). Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
    _____. A função do orgasmo (1942). São Paulo: Brasiliense, 1994.
    _____. A linguagem expressiva da vida (1948). In: Análise do caráter. São Paulo:            Martins Fontes, 2001.
    SOUZA, Octávio. Uma visita ao amor e à conjugalidade na época de Freud. In:    CALLIGARIS, Contardo; et. al. O laço conjugal. Porto Alegre: Artes e Ofícios,    1994.
    WAGNER, Cláudio. Futebol e orgasmo: ensaio sobre orgonomia e futebol. São Paulo:           Summus, 1998a.
    _____. O humorístico e sua relação com a orgonomia. In: GIBIER, Luiz; MALUF,   Nicolau (Org.). Reich contemporâneo: perspectivas clínicas e sociais. Rio de         Janeiro: Sette Letras, 1998b.

    Notas Finais

    9 Subtítulo – e, posteriormente, título – do primeiro livro A função do orgasmo, publicado por Reich em 1927.

    10 Capacidade do sujeito de envolver-se afetiva e sexualmente com um(a) parceiro(a) e de entregar-se ao fluxo da excitação, permitindo que esta atinja seu clímax e completo escoamento – fato que implica uma dissolução temporária do controle egóico e que pressupõe a ausência de rígidas fixações infantis.

    11 Profundo temor às intensidades pulsionais que, no orgasmo, invadem o sujeito, subvertendo sua organização egóica.

    12 A impotência orgástica consistindo na fonte de energia das neuroses.

    13 Blank (1995 e 1997) postula que Reich, Ferenczi e Groddeck foram os psicanalistas que enfatizaram o caráter disruptivo das intensidades pulsionais frente à contenção egóica e sugere que esta posição esteve na origem do processo de marginalização que estes autores sofreram no movimento psicanalítico.

    14 Isto me remete a uma interessante observação do psiquiatra José Ângelo Gaiarsa, de que “a potência orgástica não é uma qualidade individual, mas de uma relação” (comunicação oral).

    15 Urbach e Havelock Ellis (importante sexologista, cujas idéias foram examinadas por Reich no período do Seminário de Sexologia) também utilizavam gráficos para expressar o processo sexual.

    16 Antes de Reich, Freud já se pronunciara, em diferentes momentos de sua obra, no sentido de que o prazer sexual seria o protótipo de toda forma de satisfação, mesmo daquelas derivadas de processos de sublimação.

    17 A partir de uma leitura ferencziana, Blank (1995) e Figueiredo (1999) propõem que o anseio orgástico – e, igualmente, o anseio do bebê de união com o corpo materno – deriva de (mas, ao mesmo tempo, arremessa para longe de ..., o que traz de volta a ..., etc) uma tendência regressiva de retorno ao útero, que, por sua vez, corresponderia a um impulso filogenético de retorno ao ambiente marinho (regressão talássica).

    18 Ver, por exemplo, O ego e o id (1923).

    19 Wilhelm Reich participou ativamente deste processo de transformação, embora o rumo tomado por estas modificações, em diversos aspectos, não tenha sido aquele por ele propugnado (a este respeito, ver Reich, 1981 [1936]).

    20 Michel Foucault, citado por Branco (1987) e Giddens (1993), questiona o que denomina “hipótese repressiva”, apontando que a moral vitoriana atribuiu uma importância à sexualidade inédita no ocidente, que se expressou através do desenvolvimento de uma scientia sexualis (ciência sexual), que buscava descrever e classificar minuciosamente as modalidades de comportamento sexual (perversões, ou aberrações sexuais) que contrariavam a norma vigente – o sexo a serviço da procriação. De acordo com Foucault, este discurso consistiria em uma sofisticada estratégia “(...) para promover, ao lado do controle e da repressão, formas um tanto excêntricas de prazer” (Branco, 1987: p. 53).

    21 Se digo falo, e não pênis, é porque estou recorrendo a referências simbólicas, não anatômicas.

    22 Esta concepção teórica tem sido freqüentemente criticada por ser falocêntrica; no entanto, entendo que esta é uma característica da cultura em que vivemos (Reich preferia denominá-la patriarcal), como Freud o demonstra através do mito de Totem e tabu (1913).

    23 Leia-se, a este respeito, o excelente artigo de Freud Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna (1908).

    24 Penso ser possível considerar a histeria feminina do tempo de Freud como sendo uma manifestação quase política, na medida em que encerrava uma reivindicação implícita (reprimida) do direito da mulher ao desejo sensual.

    25 Neste sentido, o próprio anseio pela simultaneidade dos clímaxes, se transformado em ideal a ser, necessariamente, alcançado, pode vir a constituir-se em uma nova tentativa, mal-disfarçada, de submeter a sexualidade a algum mecanismo coercitivo.

     

    NENHUM COMENTÁRIO POSTADO!