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É possível “gozarmos juntos”? – Parte 1

Amadeu de Oliveira Weinmann

INTRODUÇÃO

            A leitura recente de um dos mais remotos artigos de Wilhelm Reich – O coito e os sexos, publicado na revista do Seminário de Sexologia da Faculdade de Medicina de Viena, em 1922 – colocou-me diante de uma questão que me parece possuir uma significativa relevância clínica e que, no entanto, não me recordo de haver encontrado algo escrito a seu respeito na literatura de inspiração reichiana: o problema da discrepância temporal entre o momento do clímax do homem e o da mulher, no ato sexual. Mesmo Reich não tornou a debruçar-se sobre este tema, senão que muito tangencialmente, em outros momentos de sua produção teórica.
            Entretanto, queixas de pacientes em relação a esta questão surgem com relativa freqüência no consultório. Talvez o mais comum seja escutarmos de mulheres que seus companheiros são apressados demais e que se preocupam pouco com o prazer delas. No entanto, também atendemos homens que se queixam que suas mulheres exigem de sua potência para além das possibilidades deles; e que, por mais que se esforcem, estes homens não conseguem satisfazê-las. Bem mais raro, mas não impossível de se encontrar, é o caso do homem que se frustra porque sua parceira atinge o orgasmo rápido demais, sem que ele possa experimentar o clímax com ela. Por vezes, esta questão aparece de outra forma, não abordada por Reich em seu artigo: refiro-me à situação em que, com certa regularidade, o desejo do encontro sexual surge para um dos parceiros, mas não para o outro (podendo ser este sempre a mesma pessoa, ou não); no entanto, é muito provável que estas sejam apenas duas modalidades de manifestação do mesmo fenômeno.
            A análise desta questão, no artigo O coito e os sexos, remeteu-me a refletir de uma forma mais ampla sobre a teoria reichiana da sexualidade, em sua formulação mais elaborada: a teoria do orgasmo. Esta reflexão, por sua vez, acabou por inserir-se em uma perspectiva de análise histórica, que vem me ocupando nos últimos tempos. De modo que este trabalho teve seu foco ampliado, embora sua questão de fundo – que dá nome ao artigo –, tenha permanecido o tempo todo no horizonte, funcionando como um organizador da reflexão. Esta ampliação do foco pareceu-me necessária, a fim de que a discussão do tema principal não se esgotasse em si mesma – o que certamente a empobreceria.
            Finalmente, ainda a título de introdução, penso ser importante esclarecer duas questões. A primeira diz respeito ao sentido atribuído, neste artigo, ao termo gozar. Psicanaliticamente, é possível afirmar, por exemplo, que, não raro, a mulher frígida goza, neuroticamente, com o fato de seu parceiro ser incapaz de fazê-la gozar, orgasticamente. Compartilho deste ponto de vista; entretanto, neste trabalho não é este o enfoque adotado. Gozar, aqui, tem a conotação estrita de atingir o orgasmo. O outro ponto é o seguinte: gozarmos juntos, neste artigo, não significa, necessariamente – como, aliás, o próprio Reich assinala em O coito e os sexos –, ambos os parceiros atingirem o clímax no mesmo instante, mas tem o sentido de que os envolvidos no encontro sexual possam proporcionar-se, reciprocamente, a experiência de satisfação.

 

REICH, O COITO E OS SEXOS
            O artigo O coito e os sexos baseou-se em uma exposição que Reich realizou no Seminário de Sexologia da Faculdade de Medicina de Viena, em 1921. Trata-se de um trabalho eminentemente sexológico, pré-psicanalítico, embora a influência das teorias freudianas já possa ser claramente percebida. Nele, Reich contesta os pontos de vista sustentados em um artigo intitulado Acerca da diferença de tempo nas sensações dos sexos durante o coito, publicado na revista do Seminário de Sexologia por um certo Urbach, em 1921. Este autor interpretava a existência de uma discrepância temporal entre o clímax masculino e o feminino – no sentido de que o orgasmo do homem sempre aconteceria antes do da mulher – como tendo uma finalidade biológica, qual seja, a de que o homem ejaculasse pela segunda vez. Nesta segunda ejaculação estariam dadas as condições ótimas para a concepção, já que, após o orgasmo da mulher, “(...) o útero se desloca para baixo, o colo do útero se abre e a membrana mucosa de Kristeller fica protuberante. Então o esperma masculino seria encaminhado ao útero imediatamente após a ejaculação (...)” (Reich, 1992 [1922]: p. 15).
            Reich não contesta o valor empírico da constatação da discrepância entre o momento do clímax do homem e o da mulher, no ato sexual; entretanto, refuta a perspectiva finalística (e idealista) da argumentação de Urbach. Se a intenção era favorecer a reprodução, por que motivos a natureza não tratou de colocar o orgasmo do homem após o da mulher? Evidentemente, o que está em jogo não são desígnios (sobre)naturais. Partindo desta premissa, Reich proporá que se retire a questão do terreno da finalidade e que se a reinterprete desde o ângulo da causalidade.
            Embora reconheça a alta incidência do fenômeno a que se refere Urbach, Reich questionará sua normalidade. Afirmará que, se deslocarmos o termo normal de seu sentido estatístico – um dado que prevalece na maioria dos casos – em direção a uma conotação subjetiva, relativa ao bem-estar psíquico e social proporcionado pela experiência, poderemos “(...) admitir que no caso de clímaxes simultâneos do homem e da mulher a satisfação lhes é assegurada, enquanto que no caso de clímaxes separados – especialmente no caso de clímax prematuro do homem – a satisfação da mulher será discutível” (Reich, 1992 [1922]: p. 16). Nesta perspectiva, normal seria a coincidência dos clímaxes, ou, quando isto não fosse possível, que ambos os parceiros pudessem atingi-lo, apesar da discrepância temporal.
            Reich questionará, também, o reducionismo biológico implícito na tese de Urbach, isto é, sua concepção de que o ato sexual seria marcado por estágios regulados por uma sucessão automática e fisiologicamente condicionada, que acarretaria a inevitável discrepância temporal entre o clímax do homem e o da mulher. De acordo com Reich, fatores psíquicos e sociais seriam capazes de intervir nos mecanismos fisiológicos envolvidos no ato sexual, quer no sentido de proporcionar uma certa harmonia entre os parceiros, que possibilite a gratificação recíproca, quer no sentido de provocar uma perturbação no relacionamento do casal, que implique na insatisfação de um de seus membros, ou de ambos1.
            Ao longo do artigo, Reich ocupar-se-á em demonstrar os processos psíquicos e sociais responsáveis pela discrepância temporal nos clímaxes masculino e feminino. Em síntese, estes fatores seriam “(...) a divisão da unidade da pulsão libidinal num componente afetivo e em outro sensual (...)” (Reich, 1992 [1922]: p. 19) e o modelo duplo de moral sexual, que lhe corresponde. Reich cita como exemplo de divisão da pulsão libidinal aqueles casos de impotência facultativa, nos quais “(...) o paciente não consegue ter relações com a própria esposa, mas nunca falha com as prostitutas” (Ibid.: p. 17)2. Esta divisão teria origem, no homem, na cisão do objeto primordial em duas figuras antagônicas: a mulher idealizada, venerada (esposa-mãe), e a prostituta (porção da figura materna que se entrega sexualmente ao pai). Reich afirma que, quando perguntados acerca do porquê de não manterem uma vida sexual excitante com suas esposas como a que mantêm com as prostitutas, estes homens invariavelmente respondem que “o quarto do casal não é um bordel. Uma mulher decente não deve aceitar essas obscenidades” (Ibid.: p. 20).
            Reich sustentará que a ejaculação precoce, quando se manifesta apenas com a esposa, é uma forma branda de impotência facultativa e revela a apreensão do homem em relacionar-se sexualmente com uma mulher de seu nível social; mas que, quando afeta o contato sexual com qualquer mulher, “(...) ela é então a expressão de uma certa angústia inconsciente, geralmente uma angústia de castração. Tais pacientes fornecem imagens inibidoras, como por exemplo, que a mulher tem dentes na vagina ou que existe alguma coisa no fim do ‘tubo’ da mulher que abocanha o pênis” (Reich, 1992 [1922]: p. 19). Neste segundo caso, a cisão esposa/prostituta (ou esposa/amante, etc) apresentar-se-ia erodida e a sexualidade masculina, afetada em maior extensão – embora em igual profundidade.
            Reich assinalará que, mesmo quando o homem não sofre de impotência facultativa, ou de ejaculação precoce, freqüentemente comporta-se com sua esposa exatamente como com a prostituta – de forma completamente egoísta, sem manifestar interesse em proporcionar-lhe satisfação3, “(...) já que raramente ou quase nunca experimentou um aumento do seu próprio prazer através do orgasmo da mulher”4 (Reich, 1992 [1922]: p. 20). Sucintamente, estes seriam os fatores relacionados à psicologia masculina responsáveis pela discrepância temporal entre o momento do clímax do homem e o da mulher; eles seriam referendados por uma moral social perante a qual a realização do adultério, pelo homem, seria quase uma obrigação, a fim de preservar a família dos efeitos perniciosos da sexualidade5.
            Desde a perspectiva feminina, Reich tomará a frigidez – situação limite de inibição da excitabilidade sexual da mulher – como ponto de partida para as suas reflexões. Reich (1992 [1922]: p. 17) sugerirá que a frigidez decorre, freqüentemente, da “(...) rejeição neurótica do companheiro imposto ou livremente escolhido”. Podemos nos perguntar se seria neurótica a rejeição de um companheiro imposto, ou de um marido impotente, ou ainda de um parceiro completamente desinteressado de sua satisfação; no entanto, parece-me que Reich está denominando neurótica a forma assumida por esta rejeição – a renúncia, pela mulher, à possibilidade de desfrutar o prazer sensual. É certo que esta renúncia possuía vigorosos determinantes sociais: Reich aponta a exigência, que recaia sobre as moças, de completa abstinência sexual até o matrimônio; as enormes restrições à realização do adultério pela mulher; e a ausência de satisfação sexual no casamento, que freqüentemente era compensada por um amor completamente abnegado aos filhos6.
            Mesmo levando estes aspectos em consideração, Reich assinala que as perturbações da excitabilidade feminina também são encontradas em mulheres que escolheram parceiros capazes de proporcionar-lhes satisfação. Isto aconteceria nos casos em que “(...) a indispensável repressão da sexualidade clitoriana e por conseguinte, sua transferência para o sistema vaginal não foi bem sucedida durante a puberdade” (Reich, 1992 [1922]: p. 18). As falhas neste processo deixariam marcas perenes na sexualidade feminina. Reich sugere que, por conta disto, muitas mulheres desconheceriam o erotismo genital e sua sexualidade tenderia a encontrar-se difusa pelo restante do corpo: “a primazia do refinamento na arte de se vestir e se movimentar, a coqueteria especificamente feminina, entre outras coisas, são indicações disso e parecem ser os equivalentes da erogeneidade fálica” (Reich, 1992 [1922]: p. 18). Um outro destino deste processo seria o completo desinteresse pelo companheiro e a transformação da maternidade em fonte primordial de gratificação – o filho como substituto do falo perdido. De acordo com Reich, este conjunto de fatores explicaria, do lado da mulher, as razões da discrepância temporal dos clímaxes no ato sexual, apontada por Urbach.
            Por outro lado, quando os componentes afetivo e sensual da corrente libidinal permanecem unificados e convergem sobre o companheiro, as circunstâncias são completamente diferentes: “um homem experiente que tem laços igualmente físicos e afetivos com uma mulher, na medida em que é plenamente potente e devido aos seus sentimentos pela mulher, conseguirá modificar seus diferentes estágios de coito fisiologicamente condicionados. Deste modo, ele atingirá o clímax quase que simultaneamente à parceira (...)” (Reich, 1992 [1922]: p. 21)7. Entretanto, Reich reconhece que esta situação – que, do seu ponto de vista, é a mais gratificante para o casal – é bastante rara, pelos motivos arrolados acima8.

O texto prossegue em É POSSÍVEL “GOZARMOS JUNTOS”? – Parte 2

 

Notas Finais


1 Já aqui podemos identificar a inclusão da sexualidade no ponto de intersecção entre processos biológicos, psicológicos e sociológicos, que caracteriza a concepção reichiana.
2 Um cliente meu, que padece desta divisão, ao final de uma determinada sessão contou-me a seguinte piada: “tu sabias que estão lançando no mercado um novo modelo do Viagra, o Viagra Plus?”. Eu, crédulo, respondi que não. Ele prosseguiu: “Pois dizem que com ele o homem é capaz de transar até com a própria esposa!”.

3 Reich diferencia a ejaculação precoce, que associa à idealização da mulher, da ejaculação antecipada, que denota a falta de interesse do homem pela satisfação de sua companheira e pressupõe uma atitude de subestimação e de desprezo em relação ao sexo feminino.

4 Neste contexto, Reich discute os efeitos da simulação do orgasmo, pelas prostitutas, sobre a excitabilidade do homem.

5 Possivelmente, esta seja a origem do mito de que o homem possui maior “necessidade sexual” do que a mulher.

6 Reich também inclui a miséria social, que afeta mulheres da classe trabalhadora, obrigando-as a dedicarem-se exaustivamente ao trabalho e aos filhos, muitas vezes sem o apoio de um companheiro, entre os fatores que podem contribuir para sua renúncia à sexualidade.

7 Deve-se observar que, sempre que Reich discute a possibilidade de simultaneidade dos clímaxes, neste artigo, é ao homem que atribui a responsabilidade de operar as modificações necessárias para que isto ocorra.

8 Reich (1992 [1922]: p. 22) afirma que “(…) as queixas de insatisfação são mais raras nos casamentos realizados sob circunstâncias favoráveis ou nos assim chamados casos de amor livre, (...) na medida em que não existam profundos distúrbios psíquicos individuais”.

 

 

 

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