Transtorno Bipolar e Espectro Bipolar


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Transtorno Bipolar e Espectro Bipolar

Psiquiatria Baseada em Evidências
( Parte 1 - Parte 2 - Parte 3)


Gustavo Salles Puglia Martins

Psiquiatra, Título de Especialista pela
Associação Brasileira de Psiquiatria


Transtorno Bipolar do Humor ou Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) são dois nomes para a mesma entidade clínica, usualmente referida apenas como “Transtorno Bipolar”. Não é de forma alguma tema novo para a Medicina, pois há descrições antiqüíssimas sobre o transtorno, apesar de feitas sob nomes diversos. Atualmente está bastante em evidência e tende a ficar ainda mais, pois tem sido cada vez mais comentado nos meios de comunicação. Talvez o renovado interesse se deva ao fato de que dentro da própria Psiquiatria este seja um tema que está sendo exaustivamente revisto. Não sem controvérsias.

Há muito tempo acumulam-se evidências de que determinados grupos de pacientes, com diagnósticos e contextos diversos, aparentemente tendo em comum apenas o fato de apresentarem respostas ruins ao tratamento (particularmente aos antidepressivos), talvez tenham algo que os agrupe e ao mesmo tempo que aponta para a possibilidade nova de tratá-los sob a óptica do que se convencionou chamar “Espectro Bipolar”.

Transtornos do “Espectro Bipolar” não são problemas novos, portanto. Apesar de incluírem “altos e baixos” e períodos de depressão intercalados com “euforia” (mania), são na verdade uma inovação parcial, uma ampliação do conceito tradicional de “Transtorno Bipolar”. Chamou-se à atenção para o fato de que pacientes “sem diagnósticos claros” ou com respostas imprevisíveis e com agravamentos quando tratados com alguns medicamentos deveriam ter algum fator em comum. Esse fator foi identificado como o “temperamento de espectro bipolar”.

O que seria, portanto, esse “temperamento bipolar”, que é a característica definidora e ao mesmo tempo causadora de problemas tão diversos, hoje englobados sob a denominação de espectro bipolar? Para explicar é preciso antes esclarecer que todos nós temos um certo padrão de temperamento, mais ou menos estável ao longo da vida. Grosso modo, envolve aquilo usualmente referido como o “gênio” da pessoa. A respeito do temperamento é que utilizamos termos descritivos como “genioso”, “temperamental”, “instável”, “imprevisível”. Fala-se coloquialmente que alguém tem temperamento “inquieto”, “retraído” “irritadiço”, “pavio curto”, “calmo”, e assim por diante. Temperamento trata, portanto, de características usualmente duradouras e meio que definidoras do “jeitão” de cada um de nós.

O chamado temperamento bipolar, então, vai muito além do que o nome sugere inicialmente. Ou seja, não engloba somente aquelas pessoas que oscilam o estado de ânimo (humor) entre depressão/tristeza e bem-estar/alegria/euforia.  Define antes de mais nada aquelas pessoas de temperamento “forte” –  pessoas com vidas intensas, dramáticas, surpreendentes (para o bem e para o mal), instáveis, etc; assim como pessoas ousadas, com energia abundante, “elétricas”, inventivas, de espírito inquieto, ousado, rebelde, aventureiro.

Frise-se que as características descritas até agora e aquelas a seguir, podem estar presentes nas mais diversas combinações e intensidades. Somente se forem características duradouras (não circunstanciais) e se estiverem presentes em determinadas combinações e intensidades, causando prejuízo funcional ou sofrimento subjetivo é que diremos se tratar de um temperamento bipolar.

Cabe também lembrar que se considera o temperamento uma característica psíquica de natureza fortemente biológica. Portanto, influenciada em grande medida pela herança genética (“filho de peixe, peixinho é”) e presente e definida já muito precocemente (muitos futuros bipolares já se mostram crianças inquietas, hiperativas, rebeldes, ou então retraídas, isoladas e passivas), apesar de poderem causar problemas só na adolescência ou vida adulta. É determinado pelo arranjo neuronal (células cerebrais) de cada um, por sua “química cerebral” e não é facilmente modificável pelo esforço deliberado. Eis aqui um ponto importante para reflexão.

Muitas vezes algumas características disfuncionais de personalidade (irritabilidade, instabilidade, impulsividade, alterações inexplicáveis do estado de ânimo, etc) são de fato quase impossíveis de serem modificadas sem a ajuda de medicamentos específicos. Para esses pacientes - do “espectro bipolar” - utilizam-se via de regra, os chamados “estabilizadores do humor” (são diversos medicamentos, incluindo alguns mais conhecidos, como lítio, carbamazepina e ácido valpróico, por exemplo). O objetivo é conseguir a harmonia dos “ritmos” neuronais e por conseqüência evitar as oscilações que estão na gênese de muitos dos problemas descritos. Essas pessoas ficam mais “donas de si” e menos sujeitas a estados afetivos excessivamente intensos e instáveis; menos sujeitas a emoções poderosas que as fazem agir sempre de forma passional, impulsiva, pouco ponderada e às vezes desastrosa.

 Esses novos conhecimentos apontam também para outro fato gravíssimo. Essas pessoas, com características bipolares, quando tomam antidepressivos inadvertidamente, podem apresentar uma infinidade de respostas inesperadas, com sintomas incomuns. O antidepressivo, isoladamente, poderá induzir nessas pessoas o agravamento dos sintomas apresentados ou o surgimento de outros problemas novos. A possibilidade de resultados desastrosos não é pequena. E o que é mais grave: via de regra não são identificados como sendo causados pelo uso do antidepressivo. Pensa-se que é apenas um agravamento do quadro inicial. Troca-se o antidepressivo ou se aumenta a dose. O resultado é cada vez pior. Dentro das diversas combinações possíveis, pode ocorrer uma mistura insuportável de sintomas como angústia, desespero, insônia incontrolável, irritabilidade intensa e pensamentos suicidas, por exemplo. Menos desagradável, mas não com conseqüências menos graves, essas pessoas também podem desenvolver a clássica mania/”euforia”: progressivo aumento de energia, diminuição da necessidade de sono e descanso, aumento da auto-estima, da coragem, da desenvoltura social, desinibição, aumento do apetite sexual, etc, que podem levar a pessoa a agir de forma inusual e de forma muito irresponsável e arriscada. Quando passa a crise, a pessoa via de regra diz não ser capaz de explicar “como foi capaz de fazer aquelas coisas”. Denominador comum é que essas pessoas ficam “aceleradas” psíquica e comportamentalmente.

Resumidamente, o conceito de Espectro Bipolar, chama à atenção para a existência de um grupo muito particular de pessoas. São aquelas com temperamento bipolar e, portanto predispostas a vários problemas. Elas podem adoecer psiquicamente de todas as formas conhecidas, apesar de o fazerem preferencialmente de algumas formas.

Mas o importante mesmo é nunca se negligenciar que é preciso identificar que tipo de problema está incidindo em que tipo de pessoa. Depressão, por exemplo não é tudo a mesma coisa; a apresentação sintomática e principalmente a escolha dos medicamentos é muitíssimo diferente, a depender de que pessoa, com qual história e com qual temperamento estamos lidando. É fundamental fazer uma análise em perspectiva e contextualizada. A prescrição abusiva dos hoje tão vulgarizados antidepressivos está sendo uma das responsáveis pelo aumento vertiginoso dos transtornos psiquiátricos. Pessoas com temperamento bipolar ficarão bem com a utilização dos estabilizadores do humor, isoladamente ou em associação com outros medicamentos. Dificilmente apenas com antidepressivos.

 A existência desse novo conceito exige grande atualização, atenção e cuidado por parte de quem prescreve medicamentos e bastante esforço de conscientização por parte de todos. Não dá para generalizar ou simplificar demais. Na presença de problemas como os mencionados, o sensato mesmo é procurar um profissional para uma avaliação pormenorizada.